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DAMOUS

  • Foto do escritor: Bianca Loureiro
    Bianca Loureiro
  • 26 de jul. de 2024
  • 5 min de leitura

Para os íntimos é “dimonds”. De cara não a vejo quando chego no evento. Uma fila na entrada para pegar o elevador e confirmar o nome na lista. Antes de subir, fico horas sem entender o motivo da demora e percebo que, na verdade, ninguém queria ir de escada e só tinha um elevador para uma quantidade boa de gente. Não me demoro, subo de uma vez e me pego numa expectativa ansiosa de ver os bastidores e, quem sabe, a minha amiga. Entro em um salão já lotado e me posiciono bem no fundo esquerdo. O evento se inicia e como de praxe, os agradecimentos são os carros chefes.

Uma formatura se transformou no evento de orgulho e felicidade ao ver a minha amiga, que tanto apoiou a minha arte, dar vida a sua. Nos conhecemos nas aulas de dança da vida, provavelmente no Catete no Rio de Janeiro. De início não éramos próximas mas o tempo como um bom e santo remédio, fez a sua parte. Vimos uma a outra crescer e experimentar coisas novas na dança e com isso, vivemos experiências diferentes. Eu fiquei no Rio e ela voou para São Paulo onde conheceu e viveu coisas únicas e bastante complexas. Quando me dei conta, o tempo passou, São Paulo não era mais a sua casa e ela já era estudante de Design de Moda no Rio de Janeiro. 

A sua volta para o RJ marcou um reencontro e a necessidade de fofocar sobre o que não sabíamos. Das fofocas chamei a Mari para fazer parte de um projeto de videodança meu em que ela assinaria o figurino. De cara, ela aceitou e passamos a conversar, entender as minhas ideias e anseios, enquanto contávamos mais fofocas do meio artístico. Viver de dança no Brasil, como muitos devem imaginar, é complexo. Essa complexidade não vem apenas pela falta de estrutura que o país nos apresenta mas, também, por certas escolhas que precisamos fazer para talvez conseguirmos um pequeno trabalho sequer. Envolve falar com quem é influente, ser amigo de quem não seríamos no dia a dia, aceitar certas situações em prol da famosa hierarquia e visibilidade. Eu e Mari escolhemos cidades diferentes para viver algumas situações desconfortáveis e, em muitos lugares, abusivas. 

Antes de adentrarmos nesses assuntos, me deixe continuar sobre a tão esperada formatura. 

Um detalhe importante sobre esse evento foi que no auge do desespero de um aluno que está prestes a se formar Mari, sem querer, me passou o dia errado do desfile e eu, como uma bela distraída, apareci e dei de cara com a porta fechada e lacrada do evento sem saber o que fazer. Depois de um pedido de desculpas, seguido de muitas risadas, lá estava eu, ansiosa e feliz para ver o trabalho da minha amiga, desta vez, no dia certo.  

Embora eu não seja crítica de moda e nunca tenha estudado o assunto, posso afirmar com certeza que adorei muitas das roupas apresentadas e definitivamente as usaria. O desfile aconteceu da seguinte forma: cada estudante apresentou duas peças de roupa, que faziam parte de sua coleção. No final, o estilista aparecia e subia no palco junto com os modelos.

  É chegada a hora, o nome dela aparece no telão, junto com o nome da sua coleção: “ Panis et circenses: Mariana Damous”. Peguei rápido o celular para gravar e apesar de estar atrás de muita gente, o registro valeu a pena. 

Mariana apareceu e eu como uma boa entusiasta, gritei e aplaudi. Acabado o desfile, subimos para o rooftop do Instituto de Moda e Design do Rio onde seria servido comida e bebida. Eu já tinha apresentado a proposta dela ser uma artista Promova e é claro que ela topou. Foi o tempo dela aparecer e beber uma cerveja que nós descemos para fazer a entrevista. 

Segundo Mari, e eu também sou partidária desse olhar, a arte é uma forma política de vivência e por isso na sua coleção ela, que se identifica como uma mulher negra, quis trazer corpas que ressoassem com essa vivência. Depois de entrar em contato com algumas casas da cultura Ballroom carioca, Mariana conseguiu e decidiu que o vogue faria parte da passarela.

 

“O movimento dá mais vida à roupa. (...)Normalmente quando a gente vai num desfile de moda a gente vê muitos modelos andando em linha reta e sem expressão para valorizar a roupa e eu não concordo com esse tipo de pensamento”. 


A primeira modelo é Alynah Venus, dançarina, coreógrafa, performer e modelo conhecida na cultura Ballroom como Princess Luxury Cabal Revelon, apareceu com uma calça jeans bordada com estrelas e um top de miçangas que foi costurado a mão. O segundo modelo é o bailarino Yuka Gonçalves que apareceu com uma blusa regata com gravatas para dar movimento e uma calça. Foi com a dança na passarela que a cena Ballroom brilhou junto com os figurinos dando luz e voz aos artistas e ao legado de uma dança. 

Em seu processo criativo, Mari diz que sua peça favorita foi a blusa com gravatas, já que cada gravata representa um pedaço de sua família.”A minha família foi me dando as gravatas, então em cada roupa, na verdade, nos dois looks, cada roupa tem um pedacinho de alguém, não é só meu”. Sendo a sua primeira vez costurando e confeccionando cada detalhe, foi preciso um tempo de dois meses para entender esse processo e perceber que nem tudo sai como esperado. Nesse assunto, ainda fora da entrevista, ela me confessou que a parte mais difícil foi fazer a blusa das miçangas. Um trabalho pediu paciência e rendeu muitas lágrimas, uma vez que ela precisou abrir cada miçanga e costurar cada uma.

Enquanto ao futuro no mundo artístico, Mari diz que para a dança não há retorno para um lugar que a machucou tanto. É nesse lugar que trago a minha visão enquanto artista e escritora, sobre um meio que pode ser cruel com as mulheres devido a sua exigência e os mais diversos abusos sofridos e que, em muitos casos, são silenciados. Promova é um projeto sobre os artistas e as suas histórias e dentro disso fica um questionamento: até quando teremos mulheres que se sentem silenciadas e/ou cobradas demais e por isso a dança se torna um lugar ruim e não uma alegria? Será que um dia seremos capazes de apontar para os abusos e acolher quem se sente e carrega sequelas desse lugar? 

Com a moda, para mim enquanto amiga e admiradora, sua arte não há limite, figurinos, styling, produção de moda e desfile e principalmente “trazer pessoas que possam agregar: artistas, designers e artistas em geral. “ Esquecer nunca de pedir ajuda é e sempre será um princípio básico para nós artistas e que sem dúvida jamais esqueceremos o seu nome: Mariana Damous.   


 
 
 

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