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JOSEPH

  • Foto do escritor: Bianca Loureiro
    Bianca Loureiro
  • 13 de jul. de 2022
  • 6 min de leitura

Atualizado: 8 de fev. de 2023


Escrever não é simples ainda mais quando estamos contando a história de alguém. Acredito que criei um projeto que tem o propósito de enaltecer a arte e o artista brasileiro de forma única. Quando imaginei o Promova, a primeira pessoa que veio na minha cabeça foi ele: dançarino, professor, coreógrafo e idealizador há mais de quinze anos Joseph, ou simplesmente Josh é carioca e tem 31 anos.

Marcamos um dia pelo Google Meet para conversarmos despretensiosamente para que eu pudesse coletar o máximo de informações sobre a sua vida. Depois de quase duas horas de conversa e uma decupagem de dez páginas, consegui pensar em como passar para o papel tudo sobre esse profissional tão múltiplo. Ao contrário do que pensam, Joseph e Josh Antônio são pessoas diferentes, ou melhor, representam momentos diferentes de uma mesma pessoa. Logo no início da nossa conversa percebi que o Joseph determina uma fase em que o Josh nem sabia que seria artista. Na infância Josh era Joseph, nascido e criado na Zona Norte do Rio, especificamente entre Olaria e Fazenda Botafogo. Até os seus 14 anos Joseph jogava bola, estudava em um dos poucos colégios particulares da Zona Norte e foi um dos poucos a terminar o ensino médio na mesma escola. Todo o seu incentivo veio dos pais; sua mãe Cynthia o incentivava a tirar boas notas e queria que seu filho terminasse pelo menos o ensino médio, já seu pai Jeff é dançarino e estava sempre nos palcos porque fazia parte da Cia Deborah Colker. Porém mesmo sabendo que o pai era artista, a dança não fazia parte do seu cotidiano enquanto criança.


“A minha vida era ver o meu pai dançar, estudar e jogar bola porque eu queria ser federado. Era uma vida completamente diferente do que o Josh é e o que eu to sendo depois de alguns anos."


A dança foi aparecendo na sua adolescência como forma de manter o foco nos estudos, já que passou a dançar na escola para ganhar pontos e representar a turma nas gincanas escolares. Depois dos seus 15 anos, Joseph entrou como bolsista no Centro de Movimento Débora Colker e passou a fazer todo o tipo de aula: ballet, jazz e Hip Hop. Enquanto isso, ia sempre no Viaduto de Madureira dançar e se divertir. De certa forma, a dança sempre esteve presente na sua vida, e quando perguntei sobre a influência de seu pai enquanto artista, Josh relembrou de um momento muito marcante. No ano de 2005 seu pai quis que eles dançassem um Duo na comemoração de 1 ano do Centro de Movimento Débora Colker e nesse momento vi a empolgação em seus olhos ao contar sobre um momento tão especial que fez com que tudo mudasse. Foi dançando com o seu pai que Joseph percebeu que sabia decorar sequencias e estar em palco.

Desse dia em diante, Joseph entrou no processo de se tornar JOSH. Descobriu uma grande ligação da sua família com a arte, ou melhor, com a música black: seu pai e sua mãe se conheceram no baile charme e seu tio é cantor. Esse suporte e conhecimento familiar abriu portas e por causa disso o seu caminho começou a ser construído. Ainda no Centro de Movimento Déborah Colker cmo bolsista, conheceu o Danilo D’alma. “ Eu conheci o Danilo lá porque ele foi dar uma aula de House e logo de cara ele me perguntou se eu conhecia a dança House e me chamou para treinar”. Josh passou a treinar todos os dias, e mesmo que não entendesse o que estava fazendo, Josh sabia que sempre teve muita facilidade com as pernas porque o seu pai o ensinou muito sobre o James Brown e o movimento de perna, por isso esse aprendizado foi levado para a sua dança. Me surpreendi ao saber que Josh gostava de House por causa do movimento e que na verdade, ele odiava música eletrônica:

“Tudo o que eu fazia de House era por gostar do movimento e da dança. A minha relação com o House foi com o movimento. Eu não ouvia música eletrônica, mas comecei a entender que eu podia dançar naquela música e comecei a gostar”.


O mundo foi se abrindo e Josh passou a conhecer outras pessoas do meio artístico que o incentivavam a dar o seu melhor a cada treino. Entrou em grupos como o Under Crew, composição de Rua e xstyle. Participou de diversas batalhas, local em que Josh ficou conhecido pelo meio artístico devido as suas vitórias. O tempo foi passando e Josh começou a assumir turmas de dança, viajar pelo mundo e enquanto fazia tudo isso ganhou o respeito da comunidade artística brasileira. Seu nome ganhou espaço assim como a sua didática, um professor que tem paixão pelo o que faz e isso é sentido por todos na sala. Segundo ele, sua mãe sempre soube ensinar muito bem, assim como o seu pai.

Seu reconhecimento no meio aumentou, assim como as oportunidades. Além do Danilo, outros profissionais passaram a estar nos treinos como: Bruno Duarte, Rodrigo Soninho e ¹Aldair Junior. Todo esse tempo junto deu espaço para novos aprendizados e com essa bagagem Josh entrou para o GRN - grupo de Rua de Niterói dirigido por Bruno Beltrão e conhecido por ser um sonho de muitos dançarinos no Rio de Janeiro. O grupo viaja o mundo inteiro com os seus espetáculos e garante trabalho formal para os seus integrantes. No GRN, Josh percebeu que precisava aprender mais coisas para entregar bons resultados, já que a demanda era muito alta. Ainda assim a sensação era de que a dança ainda era um hobbie. “Eu morava com a minha mãe, então ela me bancava, por isso eu ganhava dinheiro, viajava o mundo todo e quando eu voltava não pensava em guardar dinheiro para o meu futuro. Eu pensava que ia juntar dinheiro pra gastar no Brasil, sair e ir para as festas”. Porém essa sensação mudou em 2014 quando foi retirado do Grupo de Rua e precisou voltar a dar aula. Enquanto viajava e ensaiava, Josh não dava aulas e não tinha tempo para conseguir outros trabalhos aqui no Rio. Josh sentiu que era preciso correr atrás daquilo que ele queria. A partir desse momento a necessidade de se divulgar e se produzir aumentou e desde então Josh não parou mais: deu aulas em milhares de eventos, dentro e fora do Rio, participou de bancas como jurado de batalhas urbanas, foi dançarino nas olimpíadas e se reinventou de muitas maneiras. Na pandemia deu aulas online, criou o projeto Houseria e foi contemplado com o edital Cultura presente nas redes 2021.

Tudo isso faz parte de um processo artístico em que Josh se descobre a cada novidade que aparece na sua carreira. Durante muitos momentos da nossa conversa tocamos em assuntos que vão muito além da sua trajetória. Josh entende que a sua forma de fazer arte e a sua divulgação não é igual a de todo mundo, já que tudo o que ele fez e faz foi por causa de uma vontade genuína. Segundo Wilson das neves foi a arte que se engraçou com ele e não o contrário. Para Josh isso não é diferente:









Eu não escolhi viver de dança, quando eu vi já tava vivendo”







A arte nos escolhe de forma sincera e calorosa, por isso me identifico com o sentimento e sei que isso é a coisa mais bonita. Foi com a dança que Josh pôde entender que na sua primeira apresentação com o seu pai, ele tinha vergonha de usar o seu cabelo natural. Através dela que ele entendeu todo o problema na relação que tinha com o Diretor do Grupo de Rua e como isso mudou a forma como ele se valoriza, mesmo que haja um medo de perder trabalhos ao militar sobre o assunto. Nesse momento me identifico não só com a fala, mas também com os princípios de quem eu admiro. A trajetória de Josh me inspira e a sua fala traz reflexões que não consigo ignorar. Ao falarmos da arte no Brasil Josh reitera a importância da honestidade e da justiça. Para que a nossa valorização enquanto artista aconteça é preciso que os contratantes- que vivem de dança ou não - sejam honestos com os profissionais. Valorizar o nosso trabalho, nosso salário, nossa hora/aula e o quanto merecemos ganhar faz parte de um processo em que muitos artistas preferem não olhar. O fato de querermos ser valorizados é o mínimo e isso não é ego. Se valorizar ainda gera medo entre nós artistas porque sabemos que podemos perder trabalhos e que, caso a gente não aceite a desvalorização, outro artista aceitará. Não é à toa que Josh lembra a importância de que a situação da dança no Brasil pode ser resolvida quando todos forem honestos para que a classe ganhe bem, e esse trabalho precisa ser coletivo. Como diz Emicida “quem ganha junto, sobe junto” e essa frase resume o que Josh tentou explicar na entrevista. Ainda mais quando sabemos que pessoas que vivem de dança também tentam sabotar ou serem desonestos com os dançarinos que contratam, e isso desvaloriza o meio e a arte em muitos níveis.

Joseph abriu portas para que Josh brilhasse como artista mesmo sem ter noção que um dia a sua dança mudaria a vida de milhares de pessoas. Como aluna posso dizer que vi a transformação de cada aluno por causa do House e da didática que Josh diz ter incorporado de sua mãe. Nosso primeiro artista promova é a joia rara do cenário da dança carioca.


¹ Aldair Junior era dançarino e integrou diversos grupos de dança como o Under Crew. Faleceu em 2017 em decorrência de uma doença.



 
 
 

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